A crise do jornal impresso pode ser comparado com a perda do monopólio do saber pela Igreja na Idade Média. Com a imprensa de Gutenberg a produção de livros já não estava mais restrita às mãos dos monges copistas. Uma tentativa de controlar a nova e crescente imprensa através de uma lista de livros considerados heréticos revelou-se inútil. A Igreja estava fadada a conviver com outras fontes de conhecimento.
O jornalista passa hoje por um processo semelhante, já não é detentor do monopólio da informação, cabe agora competir com redes sociais e mídias alternativas ou se juntar a elas. Carlos Castilho apontou recentemente no Observatório da Imprensa: “Estamos entrando rapidamente no contexto da produção coletiva e colaborativa de informações, enquanto a quase totalidade dos jornais ainda está atrelada à cultura da notícia feita e empacotada dentro das redações.”
O próprio Campus Party 2009 revela a fratura da mídia convencional pelas mídias alternativas. No evento o blogueiro Rodrigo do Jacaré Banguela se vestiu de dinossauro e invadiu uma sala restrita a jornalistas com cartazes humorísticos que os comparavam a seres pré-históricos. Segundo Rodrigo foi uma manifestação contra a barreira criada pelos jornalistas entre os bloguers e a mídia convencional. Um protesto para a validação da mídia alternativa diante do modo padrão de produzir conteúdo informativo.
A mídia alternativa é foco de várias pesquisas, embora não seja um conceito recente: em 1967 o pesquisador Luiz Beltrão criou o termo folkcomunicação para o estudo da cultura popular e sua relação com as mídias de comunicação de massa. Segundo ele a folkcomunicação é a comunicação dos marginalizados, que estão fora da grande mídia seja por fatores sociais e econômicos ou devido a uma atitude de contracultura. Exemplos de folkcomunicação podem ser encontrados na literatura de cordel, nos fanzines underground, nas pichações de rua, no hip-hop. Não seria o caso de incluir o universo dos bloguers e das redes sociais?
O evento mais recente de mídia alternativa foi realizado no Pará, antecedendo o Fórum Social Mundial: o Fórum de Mídia Livre. O fórum discutiu o conceito de midialivrismo, uma forma de “facilitar e garantir a democratização da comunicação” como contraponto à grande mídia, denominada também como “mídia hegemônica”. E assim como o jornalismo 2.0 o midialivrismo também é uma produção colaborativa segundo a diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ivana Bentes. Para Rita Freire, editora da Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada, a rede social colaborativa é também uma arma contra o mercado da mídia padrão: ”Sem competição e lucro, o mercado não vive.”
É visível a força crescente da mídia alternativa. Fruto de tecnologias mais acessíveis que barateiam e democratizam a produção, edição e difusão de conteúdo. Conteúdo não mais visto como propriedade dos jornalistas e especialistas mas de vários colaboradores com diversas experiências de vida, nem sempre acadêmica ou profissional.
Ainda é incerto o papel do jornalista nesta nova realidade. Estará ele condenado ao passado como os monges copistas ? A ser um dinossauro ? Por enquanto devemos acompanhar atentamente a formação destas novas mídias, procurar entendê-las e pensar como nossa formação poderá auxilia-las na produção de conteúdo informativo.
Janeiro 30, 2009 às 10:38 pm
Olá Jean! Excelente post! =)
Eu sempre fico com um pé atrás quando ouço ou leio sobre a mídia alternativa. Claro que já foi-se o tempo em que tudo aquilo que vinha pela mídia oficial poderia ser considerado como “conteúdo de qualidade” (se é que esse tempo existiu. Mas pelo menos havia critérios de seleção para conteúdos), porém o grande desafio atualmente é encontrar grupos independentes com comprometimento na qualidade da produção. As vezes isso nem acontece pela falta de interesse, mas até pela falta de fomento mesmo.
Lá no e-Storias, onde conto com sua participação! ( =) ) eu percebo como é complicado levar um grupo independente produzindo conteúdo de qualidade e mantendo um mínimo de atualizações necessárias. Não é o site que me sustenta e ele acaba ficando como uma segunda atividade, o que compromete justamente seu dinamismo.
Outra questão que aperta é a da democratização da produção de conhecimento quando muitas pessoas mal sabem escrever e ler direito! Tudo bem, agora temos lanhouses, centros de inclusão digital, mas isso democratiza um povo que mal aprendeu a juntar as palavras e compreender significados? Que dirá compreender textos críticos ou produzi-los?
O que fazer? Será que nós que trabalhamos com comunicação temos que fazer um mutirão para consertar os problemas que o governo ignora? E será que quem precisa disso vai admitir que precisa ou continuar ignorando o problema e convivendo com ele?
(Perguntas cabeludas e provavelmente sem resposta…hehehe)
Bjão!!!
Fevereiro 9, 2009 às 11:24 am
[...] há também críticos dos jornais impressos e da grande mídia, principalmente os defensores da mídia alternativa e do midialivrismo. Segundo eles o jornalismo da chamada “mídia hegemônica”, que é fruto da sociedade e [...]